
_ É tempo de Páscoa!
Pois, que se fosse em meados de abril e no lugar das orelhas estivessem com cocares de penas, ou mesmo de cartolina na cabeça com certeza seria o Dia do Índio!
Há anos a escola vem pautando a organização de suas atividades, norteada pela “datas comemorativas”.
Esse é ainda um dos assuntos mais difíceis de ser tratado no cotidiano da escola e na discussão do currículo da educação infantil.

Práticas que muitas vezes desrespeitam os valores culturais, religiosos, econômicos e éticos das crianças e suas famílias.
Uma “comemoração escolarizada” que pouco tem significado para as crianças ou ainda que acabam por estimular o consumismo infantil.
O que nos tem feito continuar a nos sentir responsáveis pela comemoração de datas religiosas católicas mesmo sabendo que eles representam os dogmas de apenas parte das famílias e crianças e que, além de ferir a liberdade religiosa, ainda os exclui!? Como aceitar festas Juninas com fins lucrativos que justificam os “concursos de Miss e Mister Caipirinha”, ou que restringem a participação nas brincadeiras apenas àqueles que possam pagar por elas !?
Não se trata de negar o contexto cultural de uma data, seja ela qual for, uma vez que as comemorações estão presentes na cultura de qualquer povo, porém, acreditamos ser imprescindível refletir sobre qual a importância destas comemorações na composição do currículo da escola.
Cabe a cada unidade educacional problematizar a partir de seus saberes e fazeres e pensar e discutir novas formas de tratá-las pra que possam configurar-se enquanto importantes situações de aprendizagem e vivências para todos os envolvidos e que respeitem os valores culturais, religiosos, econômicos e éticos das crianças e suas famílias e os princípios da educação infantil.
Estas contribuições nos ajudam a provocar discussões às vezes doloridas, porém necessárias, num grupo que se disponha a crescer e resignificar suas práticas. Luciana Esmeralda Ostetto:
O planejamento baseado em datas comemorativas

Dia do Índio – atividades: música do índio e imitação, confecção do cocar do índio (com cartolina), dançar e cantar como índio, pintar desenho do índio, recortar figuras do índio. Qual o critério para a escolha das datas a serem trabalhadas em atividades pedagógicas? Que concepção de história perpassa tais escolhas? Poderíamos dizer que o trabalho com as datas comemorativas baseia-se numa história tomada como única e verdadeira: a história dos heróis, dos vencedores. História que, na verdade, privilegia uma visão ou concepção dominante em detrimento de tantas possíveis, ignorando e omitindo, na maioria das vezes, as diferentes facetas da realidade. Por isso, a escolha é sempre ideológica, pois algumas datas são comemoradas e outras não. Além disso, quem também lucra com as datas comemorativas é o comércio, que aproveita os “dias de “ para vender suas mercadorias, fazendo-nos crer que as pessoas e coisas só merecem ser lembradas uma vez por ano e não diariamente como de fato deveriam. A marca do trabalho com as datas comemorativas é a fragmentação dos conhecimentos, pois em determinada semana os professores trabalham o início da primavera, na outra já entram com o Dia da Criança, tudo isso trabalhado superficialmente e de forma descontextualizada. Na mesma direção, podemos perceber a elaboração ou proposição de “trabalhinhos” “lembrancinhas”, dancinhas, teatros geralmente destituídos de reflexão, por parte do educador, que em momento algum pára para pensar no significado disso tudo para as crianças, se está sendo “gratificante”, enriquecedor para elas. O educador acaba sendo um repetidor, pois todos os anos a mesma experiência se repete, uma vez que as datas se repetem. Talvez uma atividade aqui outra lá, um ou outro trabalhinho seja renovado, mas o pano de fundo é o mesmo. Em relação às implicações pedagógicas, essa perspectiva torna-se tediosa na medida em que é cumprida ano a ano, o que não amplia o repertório cultural da criança. Massifica e empobrece o conhecimento, além de menosprezar a capacidade da criança de ir além daquele conhecimento fragmentado e infantilizado. Quem disse que 1º de Maio é Dia do Trabalho? Há razões para se comemorar este fardo (???)? Em questão de data, não seria relevante falar sobre o dia do trabalhador, revelando o sujeito que está por trás da atividade produtiva? Por que é comemorado o Dia de Tiradentes e não se comemora o Dia de Zumbi, que aliás sequer consta do calendário comum? E a semana da Pátria? Que pátria é essa, de fome e miséria, desemprego e desmandos políticos? O que é o Brasil, o que é ser brasileiro, hoje? Além de todas essas considerações, é possível perceber no planejamento baseado em datas comemorativas a mesma problemática da modalidade anterior. Ou seja, o planejamento acaba sendo planejamento de atividades, a organização prevê listagem de atividades, mesmo que, aparentemente, pareça estar articulando atividades de um mesmo assunto ou tema, no caso a data escolhida para ser trabalhada. A articulação é aparente justamente porque não amplia o campo de conhecimento para as crianças, uma vez que as datas fecham-se em si mesmas, funcionando mais como pretexto para desenvolver esta ou aquela atividade ou habilidade. Se na perspectiva anterior a listagem era: modelagem com argila, recorte-colagem, pintura de desenho mimeografado, na perspectiva das datas comemorativas teríamos, por exemplo, no Dia do Índio, modelagem da “casa” do índio, com argila, recorte-colagem de figuras de índios ou do que eles comem, pintura de desenho de índio mimeografado. “Ah! Mas na sociedade todos falam, todos comemoram essas datas!” As crianças vêm prá creche falando... “É certo que as crianças trazem para a creche o que vivem, ouvem e vêem fora dela. Mas será argumento suficiente essa evidência? Qual o papel da instituição de educação infantil, repetir/reproduzir o que circula na sociedade em geral ou discutir e questionar os conteúdos e vivências que trazem as crianças? É apenas “respeitar” a realidade imediata da criança, ou ampliar sua visão de mundo? É discutir e negociar significados ou legitimar um sentido único, veiculado nas práticas comemorativas de consumo?
Planejamento na Educação infantil:mais que a atividade,a criança em foco.In: OSTETTO,Luciana Esmeralda.(Org.). Encontros e encantamentos na educação infantil ...